Trump está focado numa “ameaça inexistente” da extrema-esquerda. “É importante que os países resistam à pressão”

Manifestantes cartaz Antifa protesto No Kings em Washington DC, EUA, em outubro de 2025 (Jose Luis Magana/AP)

Na semana passada, o Departamento de Estado dos EUA organizou um encontro ministerial dedicado à ameaça do “terrorismo de extrema-esquerda”, mas vários países, incluindo Portugal, só se fizeram representar pelas suas embaixadas. Diplomatas europeus disseram não ver “motivo de interesse” na reunião por não considerarem que a extrema-esquerda seja “uma ameaça de alta prioridade”. Especialistas criticam a “politização da inteligência” quando o foco do contraterrorismo deveria estar nos grupos jihadistas e em “indivíduos da extrema-direita”

A um mês de o governo dos EUA organizar um encontro com representantes de cerca de 70 países dedicado à ameaça do “terrorismo de extrema-esquerda”, o Departamento de Estado enviou um comunicado a mais de 20 embaixadas em Washington DC – da Argentina ao México, passando por Itália e Albânia – a solicitar informações sobre grupos de extrema-esquerda a atuar nos seus territórios.

O memorando de meados de junho, noticiado pelo Washington Post com base em duas fontes com conhecimento do assunto, obteve resposta de “várias” das embaixadas contactadas, mas “nenhuma indicou concordar com a avaliação do governo sobre a ameaça”, adiantou uma das fontes. Esse documento surgiu após uma série de iniciativas com o mesmo intuito que, segundo o jornal norte-americano, redundaram em baixa participação e nenhuma conclusão concreta.

Já este mês, a 16 de julho, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, inaugurou a reunião ministerial dedicada ao “ressurgimento do terrorismo político” com o aviso de que a violência de extrema-esquerda “já não pode ser negada”, apelando aos governos para tratarem o radicalismo de esquerda como uma prioridade de contraterrorismo e classificando-o como “um ressentimento venenoso disfarçado pela linguagem de igualdade e justiça”.

Como outros países, Portugal acedeu ao convite mas fez-se representar apenas pela embaixada em DC, sem ministro nem secretário de Estado. Um mês antes, o novo ministro português da Administração Interna e ex-diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, tinha sido ouvido no Parlamento – e quando questionado pelo deputado da IL Rui Rocha sobre quem representa a maior ameaça, se a extrema-direita ou a extrema-esquerda, declarou que “a ameaça de extrema-direita é muito maior” porque os seus membros “têm armas, matam, ameaçam, coagem”.

A audição parlamentar teve lugar a 17 de junho. No dia seguinte, a CNN Portugal noticiou em primeira mão a acusação formal a elementos do neonazi Movimento Armilar Lusitano que tinham planeado um atentado contra Luís Montenegro com uma “granada disparada por uma janela”; um chefe da PSP e outros oito arguidos estão acusados de um total de 29 crimes, incluindo chefia e adesão a um grupo terrorista, com planos de ataque ao primeiro-ministro e a uma série de outras figuras públicas e políticas de Portugal.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (à direita), e o conselheiro da Casa Branca Stephen Miller (à esquerda), foram os anfitriões da reunião ministerial da semana passada em Washington DC dedicada à ameaça do “terrorismo de extrema-esquerda”. (Evan Vucci/AP)

“Politização perigosa”

No encontro da semana passada na capital norte-americana, Rubio voltou a reforçar que o “terrorismo de extrema-esquerda” é uma das maiores ameaças que os EUA enfrentam e que o combate à ascensão de “extremistas de esquerda violentos, incluindo anarquistas e antifascistas”, é uma prioridade fundamental da administração Trump. Isso já tinha ficado patente no outono passado, quando o presidente chegou a assinar uma ordem executiva a classificar o Antifa, um movimento descentralizado antifascista, como uma “organização terrorista doméstica”, um rótulo retórico que, segundo especialistas, não tem peso jurídico.

Vários ex-funcionários do governo federal e especialistas em terrorismo e extremismos dizem que a estratégia da administração Trump não encontra respaldo na realidade. “Não há evidências estatísticas de que o terrorismo de extrema-esquerda esteja em ascensão”, diz à CNN Portugal Jason Blazakis, professor do Middlebury Institute of International Studies especializado em extremismo violento, que trabalhou no Departamento de Estado entre 2008 e 2018. “De acordo com todas as avaliações e fontes confiáveis de recolha de dados, desde a década de 1990, [a extrema-esquerda] permanece muito abaixo das ameaças de extrema-direita e do jihadismo.”

Citado pelo Washington Post há um mês, Colin P. Clarke, diretor executivo do Soufan Center, que já testemunhou no Congresso em diversas ocasiões enquanto especialista em contraterrorismo, tinha invocado a mesma ideia, acusando a atual administração de “politização da inteligência”. “É perigoso, porque o que estão a fazer é, basicamente, política partidária com o contraterrorismo e a olhar apenas para uma pequena parcela da ameaça geral”, sublinhou o especialista.

Blazakis e Clarke estão longe de ser os únicos a falar na “politização” de um tema sensível com repercussões potencialmente perigosas para os EUA e o resto do mundo, com vários oficiais, atuais e antigos, da área do contraterrorismo, tanto de administrações republicanas como democratas, bem como oficiais europeus, a afirmarem que a ênfase da administração Trump está equivocada.

Os vários responsáveis citados pela CNN Internacional, pelo Washington Post e por outros media sublinham que a ameaça de extrema-esquerda não chega ao nível daquela representada por grupos como o autoproclamado Estado Islâmico (ISIS) ou por elementos da extrema-direita – sendo que estes últimos foram totalmente omitidos da estratégia de contraterrorismo que a administração Trump divulgou em maio. E há até quem, entre os críticos da atual estratégia, manifeste preocupações com a aparente tentativa de inflar a ameaça para poder visar aqueles que, à esquerda, se opõem às políticas do presidente Trump.

Questionado sobre quais considera serem as maiores ameaças da atualidade, Blazakis invoca “grupos jihadistas salafistas, como o ISIS e afiliados da Al-Qaeda”, que “representam as ameaças mais significativas” e que estão “particularmente ativos em África”. Sobre as ameaças concretas aos EUA, o especialista diz que a que mais o preocupa de momento “provém de grupos patrocinados pelo Irão, que podem querer retaliar contra os ataques dos EUA ao país – seguidos de indivíduos inspirados pelo ISIS e a Al-Qaeda, que representam a segunda ameaça mais significativa, e em terceiro indivíduos da extrema-direita no espectro político”.

Grupos e organizações de extrema-direita, como os Proud Boys (na foto), foram excluídos da estratégia de contraterrorismo apresentada pela administração Trump em maio; no último fim de semana, um juiz federal arquivou os últimos processos judiciais contra membros do grupo na sequência da invasão do Capitólio em 2020, embora assumindo que o pedido de arquivamento “claramente não se baseia nos factos ou na lei”. (Seth Herald/Anadolu Agency/Getty Images via CNN Newsource)

“Política e pensamento mágico”

Em novembro, num prenúncio do encontro de há uma semana, o Departamento de Estado anunciou a classificação de quatro grupos europeus como “organizações terroristas estrangeiras”, incluindo um grupo militante na Alemanha autodenominado Antifa Ost, a par de outros dois grupos na Grécia e um em Itália.

Pela mão de Rubio, a classificação foi baseada em critérios que incluem a avaliação de que os grupos representam uma ameaça direta aos interesses de segurança nacional dos EUA. Contudo, a própria Alemanha não identificou esse grupo, responsável por alguns atos de vandalismo no país mas por nenhuma morte, como uma ameaça significativa.

“A avaliação das autoridades de segurança é que a ameaça potencial representada pelo grupo diminuiu consideravelmente nos últimos tempos”, declarou no mesmo mês um porta-voz do Ministério do Interior aos jornalistas em Berlim, ressaltando que os líderes e os elementos mais violentos do Antifa Ost estão sob custódia ou já a cumprir penas de prisão.

Em larga medida, os governos europeus têm recusado classificar o movimento Antifa como organização terrorista, apesar da pressão de partidos de extrema-direita. No caso português, o grupo parlamentar do Chega pediu ao governo em março que promovesse, junto da UE e da ONU, a classificação do movimento como organização terrorista. Nos Países Baixos, o governo de centro-direita rejeitou uma moção parlamentar com o mesmo intuito, com o ministro da Justiça a afirmar aos deputados em maio que o grupo não preenche os requisitos legais, uma vez que não existem provas de que se trate de uma organização estruturada, antes um movimento amorfo.

Reagindo à convocatória para o encontro de há uma semana, fontes de governos europeus disseram ao Washington Post não saber ao certo porque é que foram convidados a estar presentes, com um diplomata a declarar que “não temos Antifa”, outro a referir que não vê “motivo para termos interesse em participar num evento como este” e um terceiro a declarar que as autoridades de segurança do seu país “não têm concentrado esforços no terrorismo de esquerda, pois não é considerado uma ameaça de alta prioridade”.

Numa audição parlamentar há um mês, o atual ministro da Administração Interna e ex-diretor nacional da PJ reconheceu que “a extrema-esquerda radical está numa ascensão do ponto de vista europeu” mas sublinhou que “a ameaça da extrema-direita é muito maior”, porque os seus elementos “têm armas, matam, ameaçam, coagem”. (Fernando Veludo/Lusa)

De acordo com o Washington Post, grande parte dos países convidados para o encontro de 16 de julho não enviaram altas autoridades, fazendo-se representar pelo seu corpo diplomático em Washington DC, como foi o caso de Portugal. Mas Rubio não se poupou a atirar aos que descartam a ameaça da extrema-esquerda “como um delírio febril de direita ou, pior, como uma perigosa conspiração fascista”, quando na visão do governo Trump o seu ressurgimento é “uma realidade inegável” comparável aos ataques de extrema-esquerda durante a década de 1970.

“Podem autodenominar-se anticapitalistas ou anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas, mas a natureza fundamental é sempre a mesma”, declarou o secretário de Estado ao lado de Stephen Miller, conselheiro da Casa Branca e arquiteto das políticas nacionalistas anti-imigração do governo Trump, para quem o Antifa e a extrema-esquerda correspondem ao “cancro fatal da civilização”.

No encontro, Rubio voltou a pedir aos países que trabalhem com os EUA para “identificar e mapear essa ameaça e reconstruir a nossa arquitetura de contraterrorismo para a derrotar”, pedindo a “partilha de inteligência e informações e uma estratégia coordenada de aplicação da lei e ações para desmantelar as redes financeiras que as sustentam”, por forma a “destruir essas redes tijolo por tijolo” (coincidentemente, a mesma expressão que utilizou quando prometeu que os EUA vão desmantelar o Tribunal Penal Internacional).

“Os governos estão a sofrer uma pressão significativa dos Estados Unidos para classificar como terrorismo ameaças inexistentes provenientes da esquerda”, ressalta Jason Blazakis à CNN Portugal. “É importante que os países resistam a esta pressão dos EUA, pois é baseada em política e pensamento mágico. A administração Trump não tem credibilidade quando se trata de questões relacionadas com o terrorismo.”